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Crítica | Bacurau – Uma visão do Brasil sem cortes

Texto por: Marco Faustino

Bacurau, novo filme assinado pelo cineasta Kleber Mendonça, em parceria com Juliano Dornelles, é um filme brasileiro com coprodução francesa. Foi recentemente aclamado no Festival de Cannes 2019, sendo escolhido pela seleção oficial do júri da competição.

O longa foi gravado no Sertão do Seridó, interior do Rio Grande do Norte, mas faz referência a uma hipotética vila que seria localizada no oeste pernambucano, a Vila de Bacurau, nome recebido em alusão a uma ave de hábitos noturnos existente na região. O filme é elegantemente estrelado por Sônia Braga, o veterano ator alemão Udo Kier, Bárbara Colen e grande elenco, além da participação de muitos moradores da própria localidade de Barra, Rio Grande do Norte, local efetivo da vila utilizada nas gravações.

A abertura é belíssima, com uma imagem a partir das estrelas sendo lentamente direcionada ao nosso planeta – um planeta esférico, apesar das controvérsias que alguns querem impor – e embalada pela deliciosa canção “Não Identificado”, na voz de Gal Costa. Apesar disso, o filme começa com certa despretensão, em tom quase documental ao apresentar uma bucólica região do sertão do Nordeste. A aridez, a seca, estradas mal cuidadas e a vila de Bacurau surgem com seus habitantes simples, marcados pela tristeza da morte de uma velha matriarca que está sendo velada por seus habitantes.

Aos poucos, a vila é mostrada como uma espécie de local de resistência, uma comunidade que não mais deveria estar lá, provavelmente por que se recusava a ser transferida para outro local pelas autoridades. Suas raízes de fixação ao local são fortes e eles persistem, mesmo com as dificuldades de falta d’água, de carência de meios de transporte, de obtenção de alimentos e remédios. Estão afastados e quase esquecidos, desdenhados pelo poder político, mas são resistentes por conta de sua própria história, de seu passado. No meio da vila, além do prédio da igreja, sempre fechada, está o museu da cidade, local que guarda suas relíquias, suas histórias, seus laços com os antepassados. Este, com as portas sempre abertas.

Este ambiente bucólico e sertanejo, com suas agruras habitais, viverá uma experiência surpreendente a partir de acontecimentos paralelos à chegada de forasteiros, pretensos turistas que desejam vivenciar uma experiência única, possível apenas naquele lugar tão afastado. Estranhos eventos começam a acontecer na comunidade, trazendo insegurança e inquietude a pessoas que já são normalmente acossadas pelas questões mais corriqueiras de suas vidas.

A partir de um início morno, o filme ganhará um contorno bastante arrojado, colocando os personagens em situações extremas. É neste momento que perfis psicológicos inesperados veem à tona, uma oportunidade de serem apresentadas  facetas grotescas e sublimes do ser humano. Além disso, num plano mais sutil e profundo, pode ser uma oportunidade que revela aspectos surpreendentes de nosso povo, de nossa formação e de como encaramos a nós mesmos, com nossos preconceitos e arrogâncias.

O filme é uma grande paródia a uma parcela do povo brasileiro, o povo mais simples e que ainda guarda as tradições e os laços de pertencimento mantidos por gerações. Sônia Braga está impecável na figura de uma médica ou enfermeira residente na vila, uma figura quase misteriosa no lugar, respeitada por todos, apesar do alcoolismo, uma questão que a auxilia a estar mais próxima dos demais. O experiente Udo Kier, traz a figura de um estranho alemão que acompanha alguns turistas americanos na visita à região. Sua presença é forte e marcante e sua boa atuação é fundamental na geração de um clima sinistro que aos poucos vai envolvendo a trama. Boas atuações são também executadas por Bárbara Colen, Silvero Pereira, Thomas Aquino e pelo competente elenco.

Em entrevista coletiva realizada no Hotel Maksoud Plaza de São Paulo, em 20 de agosto, Kleber Mendonça revela que busca trazer em seus roteiros aspectos da personalidade dos habitantes dos lugares e cidades que visita e toma contato. Dessa forma, comportamentos e considerações de pessoas do sul/sudeste com relação ao povo nordestino e, em contrapartida, considerações de americanos em relação a brasileiros estão presentes no filme. Apesar disso, reitera que estas questões são apenas uma parcela da obra e que o filme não deve necessariamente ser classificado como regionalista.

De fato, entendo que Bacurau é uma grande obra do cinema brasileiro. O país, como um todo, merece reconhecê-lo como um resultado de vários esforços num momento em que se questiona politicamente a liberdade do cinema de produzir seus trabalhos. Se for o escolhido para representar o Brasil na cerimônia do Oscar 2020, tenho certeza que estaremos muito bem representados e com grande chance de sucesso.

Marco Faustino é ator, roteirista e dramaturgo


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